Com o cenário do crescimento exponencial do e-commerce no Brasil, o jogo dos marketplaces parecia tranquilo demais por aqui: cada jogador em sua posição, nenhuma surpresa, nenhuma jogada agressiva, tudo em seu devido lugar. Juntas, as 10 maiores empresas do setor dominavam 70% do mercado. E contando.

Até que um anúncio gerou o abalo: a Amazon vai entrar de vez como marketplace no país, começando com a venda de eletrônicos. Pronto. Foi o suficiente para o Mercado livre perder R$1 bilhão em ações, as da B2W Digital cair 20% e Magazine Luiza 17%. O caos estava implantado.

A gigante americana, que possui uma reputação quase impecável na terra do Tio Sam (mais até do que Google e Apple), usa isso como sua arma mais potente. A confiança por parte dos consumidores é tanta que a ferramenta de busca mais utilizada para pesquisar produtos não é nem o Google, mas sim a Amazon. E isso não é só nos EUA, não. O Brasil segue o mesmo padrão de comportamento. Deu pra entender a força que a Amazon tem, né?

Porém o que é inegável é que o mercado brasileiro é muito, muito diferente do americano. Para começar, a Amazon está acostumada a deter quase todo o mercado, pois nos EUA ela é praticamente a única que trabalha com este modelo de marketplace. Outra coisa, eles nunca trabalharam neste modelo brasileiro, no qual quem detém predominantemente o estoque são os lojistas. Nos EUA, parte do estoque é próprio e essa história de integração lojista x marketplace é diferente. Aqui no Brasil existe também o problema com a catalogação de produtos, já que são os próprios lojistas que fazem o cadastro, dificultando a padronização. É nesse sistema todo que players brasileiros detém uma vantagem: eles são “macacos-velhos” do marketplace, já compreendem o jeitinho brasileiro do setor há muito tempo.

Talvez seja por isso que a Amazon demorou tanto para finalmente anunciar sua entrada oficial. Por muito tempo ela só vendia livros, um produto de fácil logística e ticket baixo, pois assim ela conseguiria sentir e estudar o setor/mercado sem grandes problemas. Além disso, o estoque era próprio, evitando problemas com as integrações com lojistas. Foi só agora que ela decidiu entrar com tudo, vendendo produtos de estoques terceirizados, e já muito bem estruturada para não perder sua preciosa confiança.

E algo diz que a escolha da data de entrada não foi uma coincidência, pois estamos há um mês da Black Friday. E algo diz também que sua grande cartada ainda está dentro da manga. Há muitas críticas de que os preços dos produtos não estão tão diferentes dos outros marketplaces e que ela chegou sendo só “mais uma”. Mas o que poucos perceberam é que, com a Black Friday, a Amazon tem a possibilidade de baixar o preço além dos seus concorrentes, pois possui a menor comissão do mercado. É uma grande vantagem quando estamos falando da maior promoção do ano, onde o alguns reais a menos fazem toda diferença. É aí que ela provavelmente vai entrar pra ganhar.

Treino era treino, jogo é jogo.